João Bento, CEO dos CTT, em entrevista ao programa Conversa Capital – Antena 1 / Jornal de Negócios, diz que “a meta dos 3,5 mil milhões de euros previstos no Orçamento do Estado para a emissão de produtos de poupança, como certificados de aforro, pode estar comprometida se o Governo não tornar este produto mais atrativo”.

Em entrevista à Antena1 e ao Jornal de Negócios, João Bento considerou que ao ritmo atual os CTT ainda estão “muito longe” de conseguir alcançar a sua quota parte nesses 3,5 mil milhões e, para recuperar essa poupança, aponta baterias para o segundo semestre, “num esforço que terá de ser concertado com o Governo e o IGCP”.

O  presidente dos CTT acredita que a mudança de Governo, neste domínio, terá prejudicado a dinâmica que existia no mercado e diz que agora para recuperar é preciso atuar em duas dimensões: elevar o limite por conta para lá do previsto de 50 mil euros e oferecer mais rentabilidade aos certificados de aforro. Isto porque “fica bem ao governo promover a poupança”.

Em concreto sobre o saldo negativo das subscrições líquidas e o destino que está a ser dado às poupanças, João Bento considera que parte está a ir para os depósitos e por isso acredita que, no segundo semestre, com a redução das taxas de juro e aumento dos custos da dívida pública na colocação institucional, a situação se inverta e os certificados voltem a ser competitivos.

De resto, não teme a concorrência da banca que já pode comercializar certificados de aforro porque se trata, diz, de um negócio pouco interessante face a outros que os CTT dispõem.

Recorde-se que o Ministério das Finanças, liderado por Fernando Medina, o fim da comercialização da série E dos Certificados de Aforro e a criação da nova série F, com uma taxa de juro base inferior. Em maio do ano passado o Governo anunciou o fim da Série E nos certificados de aforro (que tinham já alcançado uma taxa de remuneração de 3,5%) e, consequentemente, lançou uma nova série com uma taxa de remuneração mais baixa (até 2,5%).

O Governo tomou essa decisão depois de em entrevista à CNN Portugal, o economista João Moreira Rato ter defendido que o Estado devia interromper a emissão dos certificados de aforro.

O economista na entrevista defendeu que talvez fosse necessário “interromper a emissão de Certificados de Aforro”, com uma taxa de juro máxima de 3,5%, considerando que o Estado conseguia financiar-se a melhores taxas nos mercados internacionais, desde logo sem estar tão dependente de reembolsos antecipados, e que a República não pode estar demasiado dependente de um tipo de instrumento de financiamento.

A posição do economista acabou por se tornar polémica, por na altura ainda ser presidente não executivo do Banco CTT e por, dias depois da entrevista, o Governo ter posto fim aquela série.

Nesta entrevista João Bento admite que o serviço postal dentro de 5 anos possa ser residual e, nessa altura, acredita que o Estado será obrigado a mudar o modelo que existe atualmente, assente na concessão do serviço postal universal.

O CEO dos CTT lembra que a decisão é do Governo assim como a necessidade de manter os 2.300 postos de presença em todo o país, porque o custo para enviar uma carta será demasiado elevado.

De resto, adianta que os CTT não pretendem reduzir a rede de distribuição que existe atualmente porque apesar do contrato também não o permitir, estão confortáveis com os postos angariados e que passaram a ser rentabilizados com o canalizar de novas funções.

Para o futuro, os CTT querem afirmar-se como operador logístico de comércio eletrónico, defende o gestor: “De futuro entregaremos encomendas e de vez em quando umas cartas”, disse João Bento.

O CEO dos CTT falou ainda dos indicadores de qualidade que os correios são obrigados a cumprir enquanto concessionários do serviço postal. O CTT acreditam que a nova presidente da Anacom, Sandra Maximiano, juntamente com o Governo, apresentem “uma proposta que vá ao encontro da realidade do mercado e compatível com a sustentabilidade económica”.

Sobre a situação política no país e questionado sobre a possibilidade de o Governo estar eventualmente a prazo, João Bento lembra que a instabilidade é sempre inimiga do investimento, mas considera que “o mais preocupante é a ideia de um Governo a prazo”.